sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Dízima Periódica

Hoje vi um carro da polícia.
Rodava sem pressa.
Os tiras, nos acentos da frente, conversavam descontraidamente.
Não havia barulho.
No porta-malas, uma jovem franzina de cabelos secos.

Se um extra-terrestre observasse e entendesse as figuras, provavelmente tentaria salvar o mais frágil dos seres, que também estava em menor número e em situação desfavorável.

Em mim também gerou certa revolta.
Fazia tempo que não via uma pessoa ser transportada presa num porta-malas.
Não bastava algemá-la e conduzí-la sentada no banco de trás?
Nossos carros não tem vidros como em Bervely Hills Cop.

Talvez tivesse abandonado a filha recém-nascida dentro de um saco plástico no rio mais próximo, ainda que o bebê chorasse de fome ou frio.

Então cheguei atrasado.
E se eu visse essa cena?

Eu, que não sou afeito à violência e discussões, que não gosto de correr riscos, interviria.
Imagino uma situação em que me sentiria capaz.
Ao impedir tal crueldade me deparo com uma jovem sem reação, que não ameaça ao menos uma fuga.
Está fadigada fisicamente e consumida mentalmente, sem a interferência de drogas.

O marido recomendou que tomasse uma providência.
Não teria como sustentar o sétimo filho.

Safou-se de uma agressão física.
Indubitável, para ele não precisava de motivos.
Bastava chegar em casa.

Deixou seis filhos.

Nenhum comentário: